sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Presença

É preciso que a saudade desenhe tuas linhas perfeitas,
teu perfil exato e que, apenas, levemente, o vento
das horas ponha um frêmito em teus cabelos...
É preciso que a tua usência trescale
sutilmente, no ar, a trvo machucado,
as folhas de alecrim desde há muito guardadas
não se sabe porque nalgum móvel antigo...
Mas é preciso, também, que seja como abrir uma janela
e respirar-te, azul e luminosa, no ar.
É preciso saudade para eu sentir
como sinto - em mim - a presença misteriosa da vida...
Mas quando surges és tão outra e múltipla e imprevista
que nunca te pareces com o teu retrato...
E eu tenho de fechar meus olhos para ver-te.


(Mário Quintana)

O Amor é Filme


O amor é filme!
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica...
Um belo dia a gente acorda e hum...
Um filme passou por a gente e parece que já se anunciou o episódio 2.
É quando a gente sente o amor se abuletar na gente, tudo acabou bem,
Agora o que vem depois?
É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos...
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos.
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O zoon in dá ré e sobem os créditos.
O amor é filme e Deus espectador!



(Cordel do Fogo Encantado)

Os buracos do espelho

O buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acordado

no lado de lá onde eu caí

pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some

a janela some na parede

a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ou

vejá tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada

o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora


(A r n a l d o A n t u n e s)

. . .

quinta-feira, 27 de agosto de 2009



Divertir os outros, um dos modos mais emocionantes de existir!

A história de Lily Braun

Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom

Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose
E até sorri, feliz

E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão
Foi desde então ficando flou

Como no cinema
Me mandava á s vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues

Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris

E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turnê

Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar

Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz

(Chico Buarque)

. . .

terça-feira, 25 de agosto de 2009



No osso da fala dos loucos têm lírios

(Manoel de Barros)

F.P


Num meio-dia de fim de primavera eu tive um sonho como uma fotografia...

...

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Manoel de Barros

...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica
nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento
que a coisa produza em nós.


...

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Angela

(Salvador, 1900 e antigamente)

A Ostra e o Vento

Vai a onda
Vem a nuvem
Cai a folha
Quem sopra meu nome?
Raia o dia
Tem sereno
O pai ralha
Meu bem trouxe um perfume?
O meu amigo secreto
Põe meu coração a balançar
Pai, o tempo está virando
Pai, me deixa respirar o vento
Vento...
Nem um barco
Nem um peixe
Cai a tarde
Quem sabe meu nome?
Paisagem
Ninguém se mexe
Paira o sol
Meu bem terá ciúme?
Meu namorado erradio
Sai de déu em déu a me buscar
Pai, olha que o tempo vira
Pai, me deixa caminhar ao vento
Vento...
Se o mar tem o coral
A estrela, o caramujo
Um galeão no lodo
Jogada num quintal
Enxuta, a concha guarda o mar
No seu estojo
Ai, meu amor para sempre
Nunca me conceda descansar
Pai, o tempo vai virar
Meu pai, deixa-me carregar o vento
Vento,Vento, vento. . .


(Chico Buarque)

Vez em quando eu te sinto suspirar. . .

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Fiz muitos retratos,


mas não me revelei.
Sabor colorido




Cores flutuantes

...



Palhacinho
chora
sem
saber
que
o
circo
não
viver
sem
você

.
.
.

Se atrapalha com as mãos, malabares com limão...






Eu gosto de janelas noturnas.


Uma paixão antiga

...

sábado, 15 de agosto de 2009

* * *



Sou lúcidamente insano, malucamente calmo.
Sou lágrima, sou sorriso.
Pureza e pecado.
Sou silêncio contido, palavras abstratas.
Sou eterno no amor, e efêmero na mágoa.
Sou tudo ou nada!

(Daltri Barros)

...

* * *

Saudade é como o ar, respiramos sem nos darmos conta até que falte oxigênio.

(Daltri Barros)

. . .
Como se fosse uma face
Fora das duas da imagem.
Que não capte o que passe.
Capte a passagem.
Jamais daquilo que não sei me afasto.
Nasci com o coração de comandante.
Não sei viver o que não é excitante.
Não sei andar onde não seja vasto.

...

Você me seguia...

O fundo dos bares

No fundo dos bares:
- Os meus cantares.
Do meu copo cheio
Sai meu rico veio.
Filão de palavra
Que a minha mão lavra.
(Que o fundo dos bares
Me dá novos ares...)

No fundo, no fundo
Meu copo é meu mundo.
Nasci vagabundo
Mas sei ser profundo.
No fundo, no fundo
No fundo eu me afundo.
Que o fundo do mundo
No fundo é . . . imundo.


Paulo Cesar Pinheiro

Meu olho envolve como flauta indiana
Minha loucura é como harpa romana
Eu te seguia

...
Meu sentimento é o bandolim cigano

...

Across the Universe

Palavras flutuam como uma chuva sem fim dentro de um copo de
papel
Elas se mexem selvagemente enquanto deslizam pelo universo
Um monte de mágoas, um punhado de alegrias estão passando por
minha mente
Me possuindo e acariciando...
Imagens de luzes quebradas que dançam na minha frente como
milhões de olhos
Eles me chamam para ir pelo universo
Pensamentos se movem como um vento incansavel dentro de uma
caixa de correio
Elas tropeçam cegamente enquanto fazem seu caminho pelo universo...

Lennon/McCartney
Peço-te o prazer legitimo e o movimento preciso

...

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

São Jorge



Eu olhava pra você.
Seu olho brilhava com o sol.
Seu rosto fino, seu cabelo engolindo você...
Aquela queda na ladeira foi tão divertida.
Não doeu nada. E tinham tantas pedrinhas no chão.
Lembro como se fosse hoje. Aquele ônibus lotado (mas eu não via ninguém) eu te procurando, você tentando abrir a bala, eu pensando que tinha passado o meu ponto (e tinha mesmo).
E de repente a coisa mais esperada aconteceu: a expulsão do liquido vermelho!
Nossa! Isso mesmo! Que vácuo no ônibus! (risos)
Eu queria estar dentro de mim pra ver aquilo.
Queria ver a nossa cara. Eu queria me lembrar da cara de "Fátima" no portão dizendo pra não fazermos mais aquilo.
Eu queria estar na sua cabeça pra entender porque diabos você esperou sua mãe sair do telefone pra entrar em casa!
Eu não queria lembrar da parte do liquido vermelho no chão, perto da parede.
Mas, obrigada por limpar!

...

Cybernetics


Sim.

Era noite. Eu estava só.
O meu mensageiro dos ventos balançava muito me avisando que iria chover no outro dia.
Sim.
Era tarde.
Eis que de repente surge impunemente uma janelinha, um nome em caixa alta.
Eu troquei algumas idéias com Adolf Hitler até você chegar para me perturbar com aquele papinho de música e blá blá blá.
Tinha alguma coisa me dizendo que... que... que...
Eu não sei bem.
Era tudo muito confuso, eu não entendia como manipular aquilo. Minha experiência era muito básica para enxergar extremas aventuras cibernéticas.
Não.
Definitivamente,
Eu não fazia amigos assim.
Esse contato era estranho demais, mas tinha qualquer coisa de boa naquela conversa.
Talvez fosse as cores que misturavamos sem pudores.
Juro! Não me reconheci naquele instante.
Sinicamente, não me reconheci.

...

Sabado

Amanhã é dia de mar!
É sabado!
Sábado é a rosa da semana.
E, claro, dia de tomar banho de mar de manhã bem cedo. Purificação total da alma.
É dia de ver o Sol brilhar e de não pensar em nada.
Sabado é dia de dizer: hoje eu quero não fazer nada, não pensar em nada.
Passar a tarde escutando Beatles e Chico Buarque, comer bolo de chocolate, visitar amigos,
ver o pôr do sol no fim de tarde em uma pedra qualquer da praia...
Nossa! Quanta coisa boa pra fazer num dia só!
Todas essas coisas tem um gosto especial pra mim.
O sabado é especial.
O cheiro do sabado é especial.
É excêntrico.
Suntuoso.
Maravilhoso.

Amanhã é sabado.
Amanhã é dia de mar.
Dia de amar.

Devastação da calma (ou a Tempestade)

As nuvens surgiam densas
Por todo lado da serra
Como montanhas suspensas
Com fíbrias da cor da terra
A terrível saraivada
Caia tão arrojada
Parecia um desespero
O zigue-zague em seu jogo
Fingiam cobras de fogo
Brigando no nevoeiro
Fortes colunas de vento
Vinham desequilibradas
Num grande deslocamento
Em ondas desencontradas
As árvores se retorciam
Línguas de fogo desciam
Com toda brutalidade
O globo todo aluía
Parecendo que fugia
Aos sopros da tempestade


Cordel do Fogo Encantado

30 de setembro de 2006















Aquela nossa alegria transbordava tanto naquela noite...
Era tão bom te ver com os olhos sorridentes.
Um vinho, um banho de mar, uma corridinha, depois uma queda na areia(parecia uma caída nas nuvens, depois de uma viagem num disco voador)
Nossos pés flutuavam como bolinhas-de-sabão-coloridamente-azul. Como era azul aquela noite.
Como as estrelas eram mais estrelas e como o dia seguinte não era o dia seguinte. De forma que parecia que o amanhã não chegaria, e se chagasse nós não acordariamos, a não ser se fosse pra ver o dia nascer, claro. (risos)
Era hora de ir embora. As pessoas estavam acabadas, cansadas e com muito sono.
Mas aquele dia era especial demais pra acabar tão cedo.
E com um olhar longe e meio turvo olhei pra frente, olhei pra ela, vi as pessoas indo embora. E sem pensar, entramos no carro. Aquelas pessoas loucas e cheias de alcool chegaram a perguntar para nós: "querem ir pra casa?"
Não respondi, ela também não. E fomos então para um lugar com plantas e um bebedouro(onde bebi água e depois expeli todo o alcool do meu corpo) Todo não. Um pouco.
Tudo aquilo era novo e tão brilhante. Até a hora que chegamos em casa. Eu só não lembro como subi as escadas com o isopor na mão. Mas lembro das minhas gargalhadas olhando pra minha mãe e de te ver comendo o resto do bolo do seu aniversário e dos seus olhos vermelhos ainda muito sorridentes a me olhar com a boca cheia de chocolate.
Não. eu não esqueço aquele 30 de setembro de 2006.

Um sonho verde

Sempre nas minhas memórias remotas há uma lembrança de uma imagem verde com um céu azul bonito.
Não sei bem porque todas as noites sonho com isso. Não entendo. Não entendo.
Mas é o verde mais lindo que já vi. Uma forma sinuosa com alguns cachinhos de cabelo de criança. Tem um cheiro de uma flor, uma flor que eu não sei o nome. É verde, isso eu sei.
Quando eu acordo de madrugada fico pensando no sonho verde, eu conto para minha mãe, mas ela disse que eu preciso ir à praia. Deve ser por causa do verde do mar. Mas não é o mar que vejo. É mais fundo, tão profundo.
Há um rostinho lá...
Lindo. Lindo. Lindo!
Tem duas bolinhas azuis.
São mais bonitas que uma noite estrelada, que um dia de Sol na praia.
É tão bonito quanto a atmosfera dos sonhos, é divino e precioso.
Eu queria não mais acordar...
Só para passear com meu sonho, viajar...
Eu não precisava nem tocar,
só o teu gesto de longe já me traz alegria.
Fique assim parado, deixe eu te mirar.
Cala-te e deixa eu te falar.
Desculpa, amanhã eu tenho que acordar.

sábado, 1 de agosto de 2009

Uma palavra caída das montanhas dos instantes desmancha todos os mares e une as terras mais distantes


(Cecilia Meireles)